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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A REALIDADE NUA E CRUA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO

           Consciente das angústias dos professores rurais com relação ao uso das mídias e das tecnologias para construir conhecimento, desenvolvi esta pesquisa com objetivo de investigar e conhecer como é usada as mídias e as tecnologias, no 6º ano do Ensino Fundamental, de uma Escola do Campo em Espigão do Oeste - RO. Buscando analisar o que leva os professores a fazer pouco uso das TICs? Como podemos incorporar o uso das TICs na prática educativa em uma escola do campo? Como explorar esses recursos, criando espaços para utilização deles no fazer pedagógico? Quais as dificuldades encontradas para fazer uso destas TICs?
          O avanço tecnológico tornou o mundo pequeno para muitas escolas, enquanto para a Educação do campo, como é o caso da Escola em questão, o mundo contemporâneo ainda se mantém distante, e as tecnologias ainda é um privilegio de poucos. Percebemos que existem vários Brasis e a universalização das tecnologias para a educação rural ainda é uma grande barreira e, os programas de formação continuada promovidos pelo Governo, ainda não alcançou estas escolas. E o que se percebe na fala tanto dos professores como dos alunos.
          Através de um questionário foram entrevistados 11 professores, com a idade entre 27 a 49 anos. 50% têm acima de 8 anos de serviços no magistério e os demais menos de 02 anos. Todos habilitados em nível superior. Foram solicitados aos mesmos que enumerassem, por ordem de maior uso, quais os recursos didáticos que eles utilizam. Em primeiro lugar, aparece a lousa e o giz; em seguida, o livro didático e paradidático. Todos declaram que não usam o computador e que às vezes usam TV e vídeo. Fato este que contradiz as respostas dos alunos, que afirmam que nenhum professor faz uso da TV e vídeo.
          Os professores declaram que passam em média de 2 a 4 horas em frente a TV. Enquanto, no computador, este tempo é menor, caindo para no máximo uma hora, sendo que apenas dois possuem computador sem conexão a internet. Os programas de TV mais assistidos por eles são: Jornal, documentário, novelas, filmes e esportes. Quanto ao domínio do computador, dois declararam não ter o menor domínio; oito, sabem mais ou menos e um declarou ter bastante conhecimento. Quanto ao uso, eles o utilizam apenas como meio para digitar e elaborar atividades e provas para os alunos.
          Em contrapartida, todos alegam que a formação de Licenciatura foi insuficiente para prepará-los para o uso das TICs e se sentem totalmente despreparados para integrá-las no seu fazer pedagógico embora tenham ciência de que precisam buscar alternativas para atualizarem-se e acompanhar esses avanços, conforme as falas a seguir:
          “Não conseguimos acompanhar os avanços tecnológicos que muda a cada dia,”
          “Precisamos de capacitação. Nós não estamos sendo preparados para os avanços tecnológicos”
          “Entendo que hoje a tecnologia é indispensável (instrumento) no processo pedagógico, e as escolas precisam se adaptar a esta realidade cada vez mais.”
          “Devemos fazer as adaptações necessárias para desfrutar das vantagens que a tecnologias oferece para a educação. O professor deve acompanhar esse processo de forma continuada para não se tornar obsoleto.”
          “A tecnologia na educação ajuda o professor e o aluno que desejam aprender; por outro lado, pode também tornar o aluno preguiçoso e acomodado.”
          Todos concordam que as mídias e tecnologias podem contribuir para o ensino aprendizagem do seu componente curricular, mas que não sabem como fazer isto, e atribuiem a responsabilidade de dar o pontapé inicial à escola.
          “A escola não tem uma base para apoiar, onde cada professor faz o que pode e não pode para fazer seu trabalho: “ensinar”.”
          “A escola precisa incentivar os alunos e os professores a terem acesso a mais recursos tecnológicos”.
          “A escola precisa se adaptar aos avanços tecnológicos e os professores, além de acolher esta realidade, deveriam se capacitar cada vez mais.”
          “ A escola deveria ter uma postura de incentivar o uso das mídias para ajudar os alunos frente as dificuldades e o professor sempre que necessário utilizar para atividades que ajudem sanar dificuldades”
Muitos acreditam que esta realidade vai mudar só quando a escola estiver conectada a internet.
          “Acredito que com a internet, tudo irá melhorar nossas aulas, planos e projetos, pois estamos quase que isolados cada vez mais.”
          “Com internet ficará mais fácil trabalhar. Estamos torcendo que chegue rápido: Professores e alunos bem informados”.
          “A internet precisa chegar porque sem ela não temos muito o que fazer no laboratório.”
Outro já é mais otimista: “Esta escola sempre teve uma postura positiva frente aos avanços tecnológicos, apoiando e incentivando o uso dos mesmos. E o professor de alguma forma busca ter esta postura ideal para estes fins,” contradizendo a resposta dada à primeira pergunta, onde o mesmo diz que não utiliza nenhum tipo de mídia diferente do livro didático.
          Dos 32 (trinta e dois) alunos que participaram da pesquisa, – 38% são repetentes na série e tem idade entre 13 a 17 anos e os demais de 11 e 12 anos. 50% têm rádio, 81% têm TV; apenas 3% têm computador e 6% só tem o livro didático em casa.
O aluno da área rural não tem as mesmas condições igualitárias de acesso à educação de qualidade, nem mesmo a oportunidade de acesso a bens, serviços e cultura, como os alunos que residem nos grandes centros urbanos.
          Quando foi perguntado, qual o tempo que eles passam em frente à TV, todos os que possuem foram unânimes em dizer que passa “o dia todo”, e 25% declararam que escutam rádio, mais pra ouvir música . O programa de TV a que assistem por ordem de preferência, em primeiro lugar vem o Programa “Melhor do Brasil” Rede Record; segundo, as novelas da Rede Globo e, na seqüência, os Mutantes e programas de auditório. Poucos declararam assistir a jornais e filmes.
          A serem interrogados se eles já tiveram algum contado com o computador, 84% declararam que sim, sendo que destes, 68% disseram que foi na escola; os demais alegaram ter tido contado na casa de parentes e amigos. O que chamou atenção foi que mesmo os professores não utilizando o laboratório de informática, os alunos de alguma forma buscam, com curiosidade, ver como as máquinas funcionam. 
 Quando perguntamos...
          ...o que eles já realizaram no PC, 67% alegaram que nas aulas vagas eles usam o PC da escola para jogar, sendo que os demais declaram que usam para fazer desenhos e pintura. O que se percebe é que na escola que os alunos encontram a porta aberta para o mundo.
          ...aos alunos, quais as mídias usadas pelos professores, em primeiro lugar apareceu o livro didático e em seguida, livros paradidáticos, jornais e revistas. Em nenhum momento mencionaram que os professores usam TV ou computador.
          ...o que seria uma boa aula, levamos um susto: 67 % declararam que é a que o professor explica bem, chama atenção dos bagunceiros e dá muita tarefa. Já 21% dizem que é quando “a gente aprende” e 12% quando todos participam. Isto nos mostra que a escola vem trabalhando dentro de uma filosofia tradicional, onde os alunos estão habituados neste sistema de aprendizagem, no qual eles dependem de um professor para prestar atenção e dar ordens. O que se percebe pelas respostas dos alunos que necessitamos romper com uma lógica enraizada historicamente.
... se gostariam que os professores trabalhassem com TV e vídeos e no laboratório de informática, todos foram unânimes em dizer que gostaria muito. Eles veem no laboratório de informática algo importante para melhorar a vida e o ingresso no trabalho.
          Para que o professor mude de postura, é necessário que esteja engajado em Formação Continuada, ter um espírito empreendedor, usar e ousar, estar aberto ao preceito de que necessita se encontrar em permanente estado de aprendizado e trabalhar em parcerias. O aprendizado coletivo provoca fortalecimento e favorece os resultados. Trabalhar com projeto de forma interdisciplinar é o caminho mais viável que favorece o aprendizado, tanto para professor como ao aluno que, juntos, vão construindo conhecimentos e habilidades.
          A formação continuada precisa ser efetiva, consistente, facilitadora e mediadora, para que surta o efeito desejado na prática do professor, ajudando-o a acompanhar as mudanças e desenvolver novas competências.
          Mudar não é fácil (a mesmice é cômoda). É preciso de coragem e incentivo para mudar. Como diz Prado para que o professor possa expandir o seu olhar para outros horizontes, é importante que ele esteja engajado em programas de formação continuada, onde os mesmos têm oportunidades de discutir suas práticas e encontrar diversas alternativas para avançar na integração destes dois eixos.
          O perfil da Escola pesquisada aponta a necessidade de um processo permanente de formação continuada e mostra que a integração das TICs na escola do campo ainda é uma barreira que precisa ser enfrentada com profundidade. A falta de políticas públicas e de investimentos para a escola no campo a torna vulnerável, provocando a saída do homem rural para a cidade.

PRADO, Maria Elisabette Brisola Brito - Prática pedagógica e formação de professores com projetos: articulação entre conhecimentos, tecnologias e mídias – TEXTO – 1993.

6 comentários:

  1. Oi, Leonina
    Pelo visto, o professor do campo precisa de base (apoio), formação e saber usar as tecnologias disponíveis na escola. Nos depoimentos citados isso ficou claro. Parece que querem inovar, mas não sabem como.
    Quando li a sua reflexão sobre a realidade desta escola, me senti como parte integrante deste "Brasil", o dos esquecidos. Fiquei me perguntando: o que leva um educador a acomodar-se?
    Cida

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  2. Oi Leonina!!
    Passei para fazer uma visitinha e dizer que realmente as formações continuadas são importantíssimas para que possamos nos aprimorar na nossa profissão.
    Abraços.
    Bethinha Menezes

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  3. Olá, Leonina!
    Louvável e comovente o seu amor pela educação e principalmente por esta área tão negligenciada que é a do campo. Os cursos de formação são feitos para todos, no entanto, como para aplicá-los aos professores da área rural as secretarias precisam adaptá-los àquela realidade, na maioria das vezes e infelizmente é mais fácil deixá-los à parte do processo por questões econômicas e até mesmo geográficas. Isso é uma pena porque além de gerar um desconforto muito grande entre os educadores, é péssimo para a própria secretaria. Ainda bem que temos educadores preocupados, assim como você, em dar voz aos problemas existentes e principalmente buscando soluções para superar tantas dificuldades.
    Vá em frente! Parabéns!
    Franci

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  4. Quando pensamos em tecnologia na educação, logo vemos a escola onde trabalhamos. Porém a realidade da escola citada, não é muito diferente da maioria, pois mesmo onde há computadores o uso ainda é pequeno diante de tantas possibilidades que esta oferece. A realidade tecnológica no Brasil ainda é muito diferente, enquanto algumas poucas escolas têm bons recursos e professores capacitados, enquanto em outras o computador ainda é apenas para a administração

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  5. Leonina, parabéns pelo seu espaço!!!!! abrigada pela dica do tema do meu tcc!!!!

    abraçosssss

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  6. Olá, querida Leonina!

    Parabéns pela sua garra e paixão pelo que faz! Vim aqui fazer uma visita ao seu blog e gostei muito do mural de fotos (A saga de uma professora), além de todo o material exposto. Vejo que você não está preocupada somente com o tema do seu TCC, mas expõe também um pouco do que fez, do que faz e dos muitos desafios que tem pela frente.

    Ainda tem muito pouco aqui, você pode nos mostrar muito mais. Continue suas pesquisas, seus trabalhos e sua vontade de fazer mais pela educação da sua região, isso é fundamental.

    Grande abraço!
    Romulo

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